terça-feira, outubro 21, 2008

Pollga in da House

Salvé, caros Sabous da blogosfera.

No raiar deste novo e resplandecente dia, que pomposamente anuncia com trombetas de ouro a titularidade de Dorvalino Maciel num importante jogo da Liga dos Campeões, cabe-me a mim fazer um outro anúncio. Menos pomposo, é certo, quiçá menos mediático, mas com toda a certeza de igual importância para o Mundo Cromático.
Falo-vos do regresso da tão estimada Pollga, desta feita para re-eleição do novo palmilhador de terrenos da lateral direita do nosso onze

Agradecemos desde já todos os nomes que haveis carinhosamente vomitado para a caixa de Cacciolis, mas tal como num trabi, só podiam caber dez, e após cuidadosa deliberação do comité na sala de estar do Moses (gastámos o dinheiro todo com as strippers da última reunião), tomámos a nossa decisão.

Ora pois, votem de acordo com as vossas memórias, os vossos corações, os vossos Pedros Estrelas e as vossas emoções. Basta procurarem pelo esgar malicioso do canalizador de jogo lateralista que dá pelo nome de Dudic.

Um Bem Haja.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Outra Dúvida Matemática

Isto da matemática é uma coisa muito gira. Mas mais giros são os sentimentos que nos desperta esse monstro sagrado que dá pelo nome de Vladan. Acredito que as sensações sejam tão fortes que até os vossos dedos tremem de tanta emoção.
Por isso, povo da bola que está no peão a arremessar cascas de tremoços para o árbitro assistente, relaxem, não se acanhem e partilhem connosco as impressões, ficcionais ou não, que o gigantesco Vladan tenha provocado em vós. Venham aqui, abaixo do post que está abaixo deste, e desfraldem as vossas bandeiras.
De permeio, continuem a metralhar-nos com os defesas-direitos que povoam o vosso imaginário. Do sucinto ao sorridente Milton Mendes, venham daí esses cruzamentos El Hadriouianos para a bancada. Cá estaremos para apanhar o cautchu.

terça-feira, outubro 14, 2008

Dúvida Matemática

Elucidem-nos:

Mais a sério: não deixem de ver o post abaixo. Ibarra, João Luís I, Marinho, Chico Fonseca e Portela, entre outros, estão neste momento a sentir-se muito abandonados e solitários, andando aos círculos numa exígua jaula dum jardim antropológico qualquer, a comer mal e em estado permanente de stress. Bem que precisam que alguém se lembre deles e que os adopte.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Comunicado Solene à Comunidade Possi

Povo da Bola,

apraz-me deveras comunicar-vos que a comissão decidiu levar a cabo uma iniciativa com um cariz de inovação tal, que faria o Possi corar de vergonha. Trata-se do primeiro (pelo menos neste blog) tetra-post.

Bem sei que tal nome pode sugerir que tudo isto é apenas uma fantochada bem montada para exaltar o nome de Pedro Henriques, lateral esquerdo face do FC Porto tetra-campeão em 97-98. Ou então do seu pamposo (e pomposo) clone Nélson Benítez, figura maior do mesmo clube dez anos à frente no calendário, durante nova tentativa invictosa de beber o cálice Tetra da terrina da imortalidade.

Mas não. O tetra-post não fala de canhotos infelizes, nem é bordado a letras de azul.
O conceito será apenas revelado nos dias que se seguem, mas como delicioso hors d'oeuvre solicitamos a vossa ajuda. Sim, Povo da Bola. A vossa ajuda.

Saiam por detrás dos teclados, fechem o browser com imagens de "man love" entre Steve Harkness e Margarido e peguem heroicamente nas vossas armas. Sim, as vossas espadas já reluzem sob o impiedoso sol do meio-dia, prontas para serem tingidas de paixão via vermelho-sangue e amarelo-Massaudu Naddah.

Sem mais delongas, eis o pedido:
Encham-nos a caixa de comentários com as vossas memórias, os vossos testemunhos, os vossos Rabiolas, as vossas imagens ou as vossas chalaças bem divertidas sobre o D. Sebastião voador dos Balcãs, o pálido e colossal Vladan.
É apenas o primeiro passo para o tetra-post, mas o último passe tendo em vista a imortalidade cromática daquele que já é cromáticamente imortal.

Mais um Cuc apenas -
Após dezassete longas horas de reunião numa caliente penthouse em Los Angeles com 14 strippers, 127 caixas de champagne e 21 plasmas a bombar em loop um Salgueiros-Tirsense de 1994, a comissão também se saiu com mais esta deliberação:
Iremos proceder a uma revotação.

No que concerne ao nosso "11 Cromos da Bola, SAD", decidimos passar uma borracha por cima dos vencedores de determinadas posições, pois tais vitórias Pollguísticas ocorreram há muitas luas atrás, quando o número de votantes era equivalente à quantidade de pessoas que não ria alarvemente do cabelo do Hermínio Loureiro. Muito pouquinhas.
























Iremos começar pela posição de lateral-direito, açambarcada indevidamente pelo mítico Broas, esse malvado okupa. Arremessem portanto os vossos nomes preferidos para a providencial caixinha de cacciolis, só para o Vladan não ficar sozinho no seu canto.

Para começar a festa, apetece-me arrotar Gil Baiano, Bilro, Gary Charles, Darko Buturovic, Zé Nuno Azevedo, Rui Eugénio, Abel Xavier, Bodunha, Neves, Carlos S., Fatih Sonkaya e Saber.
Ah...sinto o esófago bem mais aliviadinho.

É a vossa vez.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Supra Poll Final 07 (sim, SETE)

Com a celeridade própria de quem constrói um prédio de três andares com uma colher, três palitos e a bandolete do Maniche, decidimos dar por encerrada a votação que agraciará o vencedor com o prestigiadíssimo galardão de Cromo do Ano 2007. Sim, leram bem, 2007. Gostamos de fazer render o Peixe, o que é que querem?...

Assim sendo, revelamos desde já que a renhida luta entre o nominalmente infeliz Mrdakovic e o futebolísticamente infeliz Luís Filipe acabou por pender para o lado do vimaranense.
"Ah, mas qual deles", perguntais vós?

Olhem para o gráfico. Até parece que não tenho mais que fazer. Entre levar o Mantorras ao lar de idosos, dar o biberão ao Moutinho e roubar o equipamento ao Benítez, não tenho mais tempo para nada. Valha-nos que o Quitó já aprendeu a apertar as chuteiras sozinho.

Finalmente, relembramos que o vencedor desta Mega Super Supra Poll Final irá receber uma viagem com tudo pago, tendo por destino o banco do nosso "11 Cromos da Bola, SAD". Pensão completa.

Posto isto, e porque não queremos que o supracitado onze caia no esquecimento, iremos levar a cabo uma série de iniciativas* para o revitalizar. Aguardem.  

*não é uma série assim meeesmo série...mas pelo menos um postzito vai ter. Digo eu. Isto se o Ávalos não me arrancar a mão à dentada primeiro.

quarta-feira, outubro 08, 2008

O Dia Em Que A Bola Sorriu

“Aiiiiii, que já fiz porcaria!”, brada Soeiro em pleno Estádio Comendador Manuel Oliveira Violas. A bola, matreira, lá se ia a escapar. Mais esta vez.
Era habitual a bola fugir de Soeiro. Cansada de ser vilipendiada e tratada com rudes biqueiradas para a fria bancada de betão, a redondinha foi célere a assinar a papelada de divórcio com Soeiro, ditando assim o fim abrupto de uma relação torta à nascença. Soeiro, irado como um amante traído, canalizou então toda a sua raiva inata para os adversários que galanteavam a pelota com argumentos que o ciumento Soeiro não possuía.

Soeiro talvez pudesse ter sido um bom pedreiro. Os seus pés pareciam dois brutais blocos de granito e o seu espírito determinado era benquisto na indústria da construção civil. Os baldes de cimento olhavam para Soeiro com um misto de fascínio e desejo, mas Soeiro tinha outros planos, como bom vimaranense que era: distribuir a palavra de Afonso Henriques pelos campos de Portugal. À traulitada, pois claro.
Fez-se à estrada. Primeiro, num périplo pelo norte, com uma época em Lixa (que foi lixada) e outra em Fafe (na senda S. Rui Costa), ainda pela candura dos vinte aninhos, ou seja, tendo os ossos por enrijecer e uma técnica assassina por afinar.
E foi a sua preocupação com as afinações que o levou até Elvas, naquela que seria a última época dos alentejanos no top futebolístico nacional. O mentor seria o famosíssimo Paco Bandeira. Malgrado a descida dos elvenses e os dissabores causados por caramelos impróprios para consumo adquiridos à socapa em Badajoz, foi um ano em cheio para Soeiro: os acordes acústicos de Paco Bandeira acicataram a fúria interior de Soeiro, levando-lhe os índices de cólera aos píncaros. Resultado: Soeiro ganhou o reingresso no Vitória de Guimarães dotado de uma irascibilidade notável. O efeito colateral foi desatar às cotoveladas assim que lhe trauteavam a aparentemente calma “Ternura dos Quarenta”.
Quatro épocas em Guimarães, evangelizando os instintos bárbaros do Fundador nas canelas adversárias, serviram de inspiração para alguns cândidos momentos de hooliganismo primário com que os Insane Guys brindaram o país. Foi então que a ilha de Jardim chamou por Soeiro, apostada que estava em traduzir a linguagem bélica de Alberto João em entradas de pés juntos no Caldeirão. Soeiro caiu que nem uma luva no esquema táctico do Marítimo, assim como os oponentes caíam que nem tordos desamparados no relvado perante o ímpeto destravado de Soeiro.
A caminho dos trinta anos, Soeiro cometeu o erro de regressar aonde fora feliz – Guimarães. Por motivos desconhecidos, não chegou a aquecer os pitons de alumínio nas coxas adversárias, partindo daí para Espinho (como o cromo documenta). Em Espinho, na última temporada dos tigres da Costa Verde no convívio dos grandes, foi tigre de papel. A estrela começava a empalidecer.

Restava-lhe um último grande suspiro, a última hipótese de ajustar contas com essa apaixonante figura geométrica desprovida de arestas: a bola. O local: Felgueiras, terra de forte tradição caribenha, dos despudorados Ferraris amarelos à porta da fábrica de calçado e, acima de tudo, de recontros sangrentos ao pôr-do-sol, à boa moda do faroeste.
Soeiro estava nas últimas, devastado como um guerreiro solitário que sabe da aproximação da última batalha. A bola, altiva e esquiva, mulher segura de si, lá estava de olhos postos nos jeitosos médios ofensivos que Soeiro tanto abominava. Soeiro tentou a derradeira reconciliação. Abordou-lhe junto ao círculo central, quando ela passeava colada ao pé de um desses fantasistas que abundam por aí.
- Volta para mim, bolinha. Tu sabes bem que te amo. Sempre te amei… - suplicou Soeiro.
A bola nem olhou, extremando a sua indiferença. Soeiro tentou outra vez.
- Eu posso ter sido indelicado… eu posso ter partido uma ou outra caneleira desnecessariamente… eu posso ter-te tratado como tu não merecias… mas só Deus sabe como tu foste o meu grande amor… perdoa-me, bolinha. Perdoas-me?
Nessa altura, o esférico pareceu condescender; inflectiu na direcção de Soeiro, Soeiro ajeitou os lábios e o beijo entre os dois estava iminente. No entanto, surpresa das surpresas, a bola, delicada e fugidia, rolou por debaixo das pernas de Soeiro. O desespero assaltou Soeiro.
- NÃÃÃO!!!! Toda a vida a fugir de mim!!! Porquê?!?!?
Incapaz de conter a sua desilusão, Soeiro tombou instintivamente para o chão, de pernas esticadas para a frente, com a tensão dos nervos a percorrer-lhe o corpo. As suas chuteiras acertaram nas pernas do talentoso médio que o ludibriara e este deu uma pirueta no ar para o chão. O apito soou, houve aglomeração de jogadores à volta de Soeiro, que mal podia acreditar. Prontamente, o cartão saiu do bolso do juiz e sorriu-lhe outra vez, como velho conhecido que era. O destino pregara uma rasteira a Soeiro, logo a Soeiro, que tantas rasteiras pregara por aí.
Há quem diga que a bola sorriu jocosamente nesse momento. Há quem diga que a bola já não sorri desde que a família Vidigal começou a dar cartas no futebol luso.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Ich liebe mein Trabi
















Mas que amontoado de equipamentos foleiros, penteados à teclista de banda pimba dos anos 90 e fatos-de-treino tactel vai prá'qui.
Cheira-me a centro comercial ao domingo, Europa de Leste pré-Perestroika, ou aula de educação física de uma escola primária perdida nos idos de '80. Na verdade, poderia ser qualquer uma delas, mas como se sabe, a virtude está no meio - e no Alfredo Bóia.

Com a queda do Muro de Berlim, a Europa abriu-se perante si mesma como a testa de Carlos Secretário perante um remate de Banha Torres. Mas com menos sangue, sem ligaduras na cabeça e sobretudo sem perder os sentidos.
Como consequência, a Europa Ocidental, outrora tão altiva e segura de si, viu-se invadida por uma horde de mullets, bigodinhos ralos e fatos-de-treino de tactel. Alguns países tentam ainda hoje recuperar desse ingresso de verdadeirismo, como a Alemanha, a Alemanha e também a Alemanha. Sem sucesso. Porém, quando a década de 90 era apenas um recém-nascido chato e imberbe, tudo isto era novidade.

Apostando no elemento-surpresa, um grupinho de sete moços bem-parecidos meteu-se no seu trabi, e partiu rumo a Portugal. Porquê Portugal? Porque sim.
Porque sim, e porque um deles era adepto do Paços de Ferreira e queria ver o Radi ao vivo, coisa que todo o Homem deveria fazer antes de falecer. Aliás, costuma dizer-se na ex-Europa da Leste que ter um filho, plantar uma árvore, ver jogar o Radi, e escrever um livro são os quatro objectivos a atingir antes de conhecer o ceifador (não estamos a falar do Cao). O Octávio Machado já pode ir de vela em paz.

O primeiro busílis que se lhes deparou, foi que não havia forma de enfiar sete gajos e a barba do Djoincevic num trabi. Vai daí, e sugeriram que o futuro central salgueirista rapasse a selva pilosa com um corta-relva industrial.
Má ideia.
O nosso Carlos Paião hardcore de Belgrado não gostou da sugestão e apagou-lhe a vida à catanada. Os restantes cinco enfiaram-se prontamente no trabi e lá foram todos contentes em direcção à Terra Prometida do Ocidente. Posso garantir-vos que mais ninguém se voltou a meter com o Djoincevic na viagem. Aliás, foi ele quem decidiu que K7's se enfiavam no auto-rádio e quantas vezes se ouviam cada uma. E o facto de se ter ouvido a mesma K7 do Clemente por vinte e três ocasiões consecutivas demonstra muito do respeitinho que os companheiros tinham pelo dito cujo.

Chegados a Portugal, os compinchas decidiram espalhar as boas novas da Perestroika por diferentes localidades.

Dragan queria sol, praia, e edifícios de 32 andares à beira-mar.
Ljubinko queria aprender a ler em português, e sugeriram-lhe Gil Vicente.
Pestalic só queria beber café - tinha soninho.
Barnjak foi confundido com um gajo de uma banda porreira e recrutado para tocar baixo com os "Mexilhão Cheiroso", conjunto romântico do Minho. Nas horas livres jogava à bola.
Djoincevic disse que ninguém tinha nada a ver com a sua vida, e quem perguntasse mais alguma coisa seria convidado para um duelo até à morte com a sua arma de eleição: um tubinho de totocola.
O Miodrag armou-se em esperto e interpelou-o. Djoincevic prontamente sacou da totocola algures da sua barba. Miodrag fugiu, mudou o nome para Emil Kostadinov, e trocou o seu brilhante e sedoso fato-de-treino tactel por um apartamento nas Antas. Era um fato-de-treino fixe, o fecho éclair corria bem, e aquelas pequenas marcas de tecido queimado derivadas de quedas no chão do ginásio eram menos visíveis do que noutros da mesma estirpe. E era forrada a um tecido turco, branquinho.

Boa viagem, Djoincevic. Que nunca mais te perguntem para onde vais, insigne Camões de dois olhos perfeitamente funcionais.
Vais partir, naquela estrada, onde um dia chegaste a sorrir...

P.S.: Bem Haja ao Blog do Portimonense pelos cromos gentilmente cedidos, na pessoa de Pedro Simões, homónimo do nosso companheiro bloguístico e de um médio mítico da Amadora, que rematava como se estivesse em Pearl Harbor a abater caças japoneses.

terça-feira, setembro 30, 2008

Espécie de Framboesa

Há uma grande questão que a Humanidade ainda não conseguiu resolver. E não, não estamos a falar do terrorismo internacional, nem da crise financeira ou das capas d’ “A Bola”. Esse grande mistério que intriga todas as cúpulas de poder tem o nome de Amora. Como vamos nós explicar às gerações mais novas que na Amora já houve jogos de primeira divisão? E, ainda por cima, num campo pelado?
Pois é, não é fácil. Há quem acredite em extraterrestres, há quem acredite que Urretavizcaya é o nome de um banco comercial basco, mas pouca gente acreditará que ali, nessa belíssima localidade que é a Amora, no meio daqueles prédios habitacionais de vários andares que esfregam os seus estendais uns nos outros com a ferrugem da Lisnave como pano de fundo, já houve futebol de primeira.
Só quando tentamos exprimir a nossa angústia a um estrangeiro e falamos em inglês é que nos apercebemos da dimensão deste problema. Pergunta-nos o camone:
- Remember the 1981 championship? Against which teams did you lose points?
E nós respondemos:
- We drew a game against Raspberry
- Raspberry?
- Yes.
- An ordinary berry… from a bush?...
- Yes. And then we blew it again when we played against Goodsight
- Goodsight??
Mais vale nem continuar com traduções literais, apesar do Sporting of Birds nem ter estado presente na primeira liga em praticamente nenhuma ocasião (*). A credibilidade do discurso vem logo por aí abaixo, como se nota.

E por aí abaixo veio o Amora, aos trambolhões por essas séries nacionais, espalhando-se ao comprido nessa sorridente AF Setúbal, onde vai lambendo as feridas de forma plácida, aconchegando-se nos tépidos lodos do estuário do Tejo donde parece não querer, e não poder, sair.

Não nos interessa inventar a pólvora nem provar que o Amora já jogou na primeira divisão e num campo pelado. Preferimos divulgar aquela que foi a última compota de (relativa) qualidade produzida lá para os lados da Medideira. O ano: 1994, ano em que o menino Raul Meireles idealizou a sua 14ª tatuagem. O local: 2ª Divisão de Honra. Os registos que se seguem podem impressionar algumas pessoas menos familiarizadas com o kitsch aterrador que envolvia como uma névoa tóxica o mundo futebolês do final de século passado.

Há muita coisa para dizer, em termos estilísticos, sobre esta foto. Tanta coisa que merece a análise cuidada dos verdadeiros futebófilos… Mas o mundo da Internet não se compadece com compêndios de arte. Por isso, vou apenas sintetizar alguns pontos que me parecem de relevância incontornável, deixando à vossa imaginação, capacidade de percepção e demasiado tempo livre os restantes aspectos.

1 – Tirar uma fotografia de frente para o sol é um excelente estratagema para sacar a careta mais risível de cada um.
2 – Fantásticos murais de publicidade local pintados manualmente como cenário, obrigatório nas catacumbas do futebol indígena tal como um tapete da última ceia de Cristo na casa dos nossos avós.
3 – Os tipos mais espertos do grupo de trabalho (o treinador e dois informadores) precaveram-se com óculos de sol, mas nenhuns óculos de sol conseguem ocultar o distinto porte do senhor em primeiro lugar a contar do lado esquerdo na fila do meio.
4 – O tipo que se esconde atrás do Pedra, à direita na fila do meio.
5 – O 3º tipo a contar da esquerda da fila do meio possui umas melenas de fazer inveja a qualquer Pearl Jam wannabe e está com cara de quem também está muito chateado com a vida, de acordo com a cartilha em voga em 1994. Pudera, estar com o sol nas trombas, levar com bombas atómicas no cabelo para o fazer descer pela manhã e ficar ao lado do treinador… não é fácil.
6 – 3 ou 4 bigodes, só na fila do meio.
7 – Já referimos o tipo que se esconde atrás do Pedra, à direita na fila do meio?
8 – E o fato de treino do tipo de bigode com óculos escuros à esquerda na fila do meio?
9 – Com certeza que já repararam no indivíduo que se esconde atrás do Pedra, à direita na fila do meio…
10 – Será que o tipo em 1º lugar a contar da esquerda na fila de cima é cego? Ou apenas não quer ver?
11 – Fila de baixo: apreciar o jeito descontraído do primeiro jogador a contar da esquerda e o jeito de “ai, mau; mas tu queres ver que vamos ter chatices?”, do Casimiro, o 5º a contar da esquerda (e a este ponto regressaremos mais abaixo).

A título particular, queremos destacar as seguintes individualidades desta autêntica fábrica de estilo que foi o Amora.

Major – A pincelada de disciplina num balneário aparentemente desorganizado. O putativo aspecto de Lionel Ritchie, o caniche esparramado na cabeça e o bigode discreto numa cara de poucos amigos ajudaram a cimentar o lugar de Major na História. Para complementar a imagem de um central duro de roer, uma patente militar como alcunha. Porém, e lamentavelmente, levaram o Major em pouca conta. Desapareceu num obscuro campo de batalha, ao comando de um exército sem soldados. A seguir a D. Sebastião, é por Major que a Amora mais chora em dias de nevoeiro.

Jaime – orelhas de Dumbo e sorriso de criança, Jaime só queria que lhe deixassem jogar à bola. E até tinha jeito, passou largos anos com o azul de Belém ao peito e voltara em ’94 para infernizar as bancadas nuas da Medideira. Debalde. Pouco afável para quem fosse mais lesto que ele, Jaime embirrou com o cortador de relva após o 3º treino e foi fazer castelos de lama para onde hoje fica a Caixa Futebol Campus. Actualmente é conselheiro de imagem de LFV. Com resultados avassaladores, diga-se de passagem.

Maside – ar de quem foi o último a mandar uma bola de papel e cuspo ao cabelo de uma colega e a quem a professora perguntou: “Ruizinho, foste tu”? A travessura em pessoa. Sempre danado para a brincadeira. Falhava golos atrás de golos apenas para gozar com os corações dos adeptos mais velhos. Passou por Alvalade XX sem marcar nenhum golo. O verdadeiro guru espiritual dos pranksters da margem sul. Os Da Weasel cresceram a ver os pontapés na atmosfera de Maside.

Rildon – Matador de instinto felino, veio do Alto Amazonas de zarabatana em riste e com coloridas pinturas de rosto para liquidar as defensivas contrárias. Mas logo se dedicou a outros negócios – nomeadamente, os ilícitos. Esteve para vir juntamente com Ramón, Paco Nassa e Wilmar, mas venceu-os a todos num Combate Mortal no porão do barco que os transportou do Brasil, ficando com o exclusivo de representar o Amora após o fatality aplicado em Paco Nassa. Rildon foi seguramente o primeiro carjacker em Portugal, quando isso ainda significava roubar Renaults 5 só para ficar com o auto-rádio que se escondia debaixo do banco. Faltava muitas vezes aos treinos, para alívio do restante balneário.

Casimiro – a verdadeira pièce de résistance do Amora. Colocado num plano central face aos demais, foi em torno de Casimiro que todo este clube com nome de fruto silvestre organizou a sua época desportiva. A sua história constitui um grande exemplo de vida. Casimiro foi descoberto numas obras na Torre da Marinha. Acabava de saborear uma merecidíssima mini e de lançar um piropo à mulher dum dirigente do Amora que ia a passar, entrecortado por um arroto gutural só ao alcance dos predestinados. Fascinado pelo amplo vigor demonstrado por Casimiro, o dirigente imediatamente abordou Casimiro para saber da sua disponibilidade, ainda com o bafo a cerveja morna a pairar no ar:
- Ó rapaz, jogas à bola?
- Iá, dou uns toques – respondeu Casimiro, limpando o bigode da espuma.
- Queres vir jogar no Amora?
- Iá, pode ser.
- Então ‘bora lá.
E foi assim. Deram-lhe um equipamento diferente dos demais para a foto individual e Casimiro por lá andou meia época a passear a sua classe. A mulher do dirigente andou muito feliz enquanto Casimiro frequentou os treinos, vá-se lá saber porquê.

O resultado deste grupo de top-models da bola não foi famoso no campo desportivo – despromoção sem apelo nem agravo e o nunca mais regressar a um patamar tão alto. Nenhum destes jogadores permaneceu na Amora em 1995/96. Foi o preço a pagar pela soberba amorense.

(*) Já outros clubes estiveram mais épocas na primeira divisão. Eis exemplos de alguns desses clubes traduzidos literalmente: Wellstay, Celtic Lisbon, FC Oporto Wine, Lady Academic, National, Female Blacksmith Steps, Amateur Girl Star, The Bethlemners, Sporting of Keys, Sporting of Thorn e Bird River.

domingo, setembro 21, 2008

Não Saiu Aos Seus

Alex, o Bunbury do Canadá, foi um nome muito em voga nos idos de 80 e foi também o Melhor Estrangeiro do velhinho Campeonato Nacional da 1ª divisão em 1994/95. Ano em que, curiosamente, Paulo Alves e Tavares se exibiram nos principais papéis de uma selecção portuguesa aos papéis. Foi o ultra-famoso Skydome. No Canadá, claro.
Como é sabido, o Canadá tem muitos pergaminhos no hóquei no gelo, mas rivaliza de perto com o Tadjiquistão em termos de futebol. Por isso não espanta que, provavelmente, Alex seja o único futebolista canadiano que conhecemos (*) – isto se finalmente reconhecermos que Fernando Aguiar era mais um protótipo de cyborg e não tanto um jogador de futebol. E, para dizer a verdade, é talvez o melhor dos cidadãos canadianos que conhecemos – pois o Brian Adams, o Ben Johnson e a Avril Lavigne merecem o caixote de lixo e a Céline Dion devia ser co-incinerada directa e inapelavelmente em Souselas (embora Souselas não merecesse este desaforo).

Marcou golos como ninguém marcara ou marcaria no jardim do Alberto João. Cerca de 60 aconchegos à rede em meia dúzia de anos, o grande terror dos visitantes do Caldeirão, quatro letrinhas que dançaram o bailinho da Madeira tendo o golo como parelha e uma relação íntima com a sua grande amiga, a bola.
Aqui o vemos a testar as suas capacidades acrobáticas num momento de terna privacidade. Alex sabia bem o que era o melhor para o esférico, tratando-o com paninhos quentes. E a redondinha retribuía essa afabilidade, grudando-se a Alex tal como João Paulo Brito se colava à linha lateral, ciente que com Alex estaria bem.
E como não havia de estar? A doçura de Alex contrastava com a potência enviezante de Heitor, a sisudez com sotaque de Carlos Jorge, a valentia sarrafeira de Zeca e a apatia desconcertante de Asselman. Já para nem falar do indescritível Fernando Aguiar. Não havia muitas alternativas. Alex apenas fez com que a bola não tivesse dúvidas em decidir de quem ser amiga. Em troca, Alex sussurrava-lhe o segredo de beijar a rede, como grande confidente que era. E ambos iam trocando muitas carícias que faziam os goleiros perder a cabeça.
Era uma ligação que tinha tudo para dar certo. Se não foram felizes para sempre, foi porque a bola, esse fatal objecto de desejo, resolveu iniciar um flirt com o Toedtli. Já se sabe, as bolas são muito volúveis.

Citámos no início desta prosa canadianos e canadianas (que não muletas) célebres. Para quem não sabe, o saudoso Michael J. Fox é igualmente do país da folha de plátano. E quem não se lembra de quando Michael J. Fox fazia de… Alex?

(*) Abro um pequeno espaço confessional: os meus 15 segundos de fama televisiva devem-se a Alex. Novembro de 1996. Programa “Donos do Jogo” da SIC (um Trivial Pursuit futebolístico, para quem não se lembra). A tensão do directo. Pergunta do Paulo Garcia para golo: “Quem marcou o penalty que deu a vitória ao Canadá no jogo contra El Salvador na semana passada”? Oportunidade flagrante. Estava desmarcadíssimo, sem fora-de-jogo. Não era possível haver mais alguém que marcasse no Canadá. Respondi de cor, nem deixei que passasse um segundo. Inaugurei o marcador. Foi só encostar.
Resultado final: perdi… 2-1.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Cromicidade Clonada

Depois de termos provado por a+b a veracidade de expressões como…

(Javier Balboa + microfone) = (Derrick Green – 20 kg) e

Anderson Polga / Messi^2 = ln(Morten Harket),

…agora demonstramos que, de uma forma ainda mais simples, Nunes = Scott Ian. Assim. Puro e duro. Sem montagens. Sem qualquer fórmula matemática pelo meio.
Estes resultados estão de tal forma a abalar o mundo científico que já se fala num novo conjunto de teoremas aplicáveis às experiências genéticas, os chamados “Teoremas da Cromicidade Clonada”, ou TCC, passíveis de revolucionar tudo o que foi dito e escrito em termos de semelhanças humanas.
Os vários contribuidores para os TCC estão, aliás, bem posicionados para ganhar o Nobel da ciência. A concorrência mais apertada provém do fisioterapeuta de Carlos Martins, cuja tese pretende demonstrar que o ex-Recreativo consegue aguentar mais de 60 minutos por jogo sem se lesionar (partindo do princípio óbvio que consegue não ser infantilmente expulso durante essa enormidade de tempo).
Um dia conseguiremos demonstrar estes corolários igualmente em Braille. E então o Nobel será indubitavelmente nosso.
Para já, rendei-vos às evidências: a clonagem humana está aí para ficar, aproximando o mundo da bola do resto do mundo.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Eu, Génio

"Acordo. É a terceira vez esta noite.
Não sei o que se passa, sempre dormi bastante bem, exceptuando aquela noite num estágio em que fiquei no quarto do Bráulio.
Sinto a garganta seca.
Acho que vou à cozinha...tenho é que me levantar sorrateiramente, para a mulher do Punisic não dar fé.
Boa. Já está.

Vou beber um copito de vinicepa. Gosto deste sabor avinagrado...por falar nisso, quando é que sai um Caprisonne de vinagre? Aposto que teria grande sucesso.
Se bem que nunca fui bom nestas coisas. Basta recordar o episódio que marcou a minha vida:
Estávamos em 1991, e o Tueba tinha acabado de chegar ao São Luís.
Porreiro. Sempre gostei da bandeira do País dele. Parece um fazendeiro revoltado a querer queimar a casa do seu ex-patrão com uma tocha. Lembra-me este gajo. Vocês sabem do que é que estou a falar.
O fulano levava sempre uma marmita com o lanche para o treino. Sempre às terças-feiras. Sempre croquetes. Retomava o treino com um ar de satisfeito do caraças, enquanto o resto da malta treinava cabeceamentos de pé esquerdo com um ar de esfomeado tipo Ricardo Fernandes.

(por falar nisso, este vinicepa bate do cacete...)




















Eis que um dia, vou ter com ele, e sai-me esta brilhante ideia:

- Ó Tutu! E se nos metêssemos no negócio da restauração juntos?
(ele percebia mal português, portanto disse logo que sim)

- Podíamos fazer uma casa de chá, em que todos os alimentos fossem confeccionados a partir de estrume de vaca, não achas?
(ele dizia que sim a tudo)

Sempre me tive em boa conta, portanto fiz ouvidos moucos aos conselhos do Hajry, que vociferava contra esta nossa joint-venture, dizendo que seria impensável na terra dele fazer croquetes com a sagrada bosta de vaca. Gajo maluco. Ainda por cima nem é indiano. Nunca gostei dele. Dele, do Paulo Lima Pereira e do António Lima Pereira. Quem se julgam eles para usar três nomes de uma penada apenas? Jogadores da bola ou deputados do PP? Pretenciosos do catano. Se não fosse ter gasto o saldo do telemóvel todo a ligar para aquela linha erótica de anãs asiáticas, e telefonava agora para os insultar aos dois. Palhaços.
Ainda me lembro do mail que lhes mandei na semana passada.

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from: smallmenaresexy69@allgarve.uk
to: eu_tenho_tres_nomes_e_fumo_charuto@pp.pt


ola,antoniu e paulu.aqui excreve o eugenio do farençe.nao goxto nd de voxex, porque é que uxam ox trex nomex na voxa camixola do rioave?xó kria dificuldadex para ox roupeirox jornalixtax e companheirux d iquipa. é uma falta de conxideraxaum e voxex xao pretenxioxos e muito.

atentamente,

eugenio (do farençe)

---

Acho que estive bem, ao contrário da vez em que montei aquela casa de chá com o Tueba. Mas já estive a matutar nisso há cinco minutos. Não vale a pena volta a esse lugar escuro da minha mente. E o vinicepa já trepou bastante. Entre isso e voltar para a cama com a mulher do Punisic, prefiro a vinhaça, claramente. Por falar em Punisic, também nunca gostei dele. Mais um.
Costumava gozar comigo.
Tudo começou daquela vez em que me ofereceu um Big Mac num jantar do plantel, e toda a gente reparou que a minha cabeça era do tamanho do pão. Se já se metiam comigo por ser pequeno, a partir daí foi uma festa. Aquele imbecil do Pereirinha, que tinha mais 5cm do que eu, perguntava todas as 2as, 4as e 6as de manhã, se eu dormia com luz de presença no quarto. Palhaço.
Por falar nisso, é melhor ir desligá-la, senão a mulher do Punisic ainda acorda e vem para a cozinha chatear-me...tipo o Sérgio Duarte, que costumava dizer que eu era um clone bronzeado do Veloso, sem bigode e numa versão rafeira. Eu dou-lhe o arroz, áquele gajo com ar de boneco de cera da Madame Tussauds de Paratinguetá, ou lá que raio é.

A sério, o gajo tem um ar esquisito.

Pá. 'Tou a ficar com medinho, isto de estar aqui sozinho na cozinha escura a meio da noite e pensar na fronha do Sérgio Duarte é assustador.
Vou prá caminha, que a mulher do Punisic está à minha espera.
E a luzinha de presença também, Deus a abençoe."

terça-feira, setembro 09, 2008

O Senhor Olheiras

O que ficou na retina do fã do futebol não foi propriamente o porte imponente de Afonso Martins, altaneiro com os seus 61 quilogramas solidamente distribuídos por 170 centímetros, nem mesmo o fino recorte técnico com que adornava algumas jogadas na banda esquerda da intermediária. Não, Afonso seria ímpar por outros motivos.

Quer queiramos quer não, Afonso Martins será sempre lembrado pelas suas olheiras descomunais.
Tudo o resto assume pouca importância à luz deste facto.

Quão duros eram os tempos naquele Sporting da década 90, treinado num regime quase militar por aquele-que-toda-a-gente-sabe-do-que-ele-fala, ou pelo menos por aquele-que-pensa-que-toda-a-gente-sabe-do-que-ele-está-a-falar-e-que-até-tem-um-livro-editado-em-nome-próprio. Nem um segundo de sono, eram alvoradas duras na parada, noites ao relento pelos campos. E depois uma certa predisposição natural para escurecer a zona sub-ocular.
Até que os delírios causados pela privação do sono alarmaram o Sporting A. Destino do vampiresco Afonso: Sporting B, pois claro. O cacifo ao lado do Gisvi. Um pesadelo a cores, todos os dias. Foi para isso que regressaste de Nancy, Afonso?
Oxalá Moreira de Cónegos e Lixa te tenham proporcionado o descanso que mereces, Afonso.
E agora, o trailer:

terça-feira, setembro 02, 2008

Era Uma Vez Fonseca

Fonseca nasceu em Lisboa e iniciou a sua adolescência a espremer borbulhas no glorioso SL Olivais. Daí para o Sporting, Oriental, Torralta, Cova da Piedade e Alcobaça, saltitando aleatoriamente os degraus da sua promissora carreira em busca da fortuna, deixando um rasto de expressões faciais esquisitas e um intenso perfume a acne pelos balneários. Depois, fez-se homem quando subiu até Santo Tirso, entrou pela porta da esperança no Benfica e provou algum do néctar do sucesso, voltou a subir até Guimarães e desceu definitivamente até à Amadora. Mas o Fonseca, tal como o conhecíamos, morreu. Hoje já só existe o Tony Fonseca.
Este é, portanto, o epitáfio de Fonseca. Devido à imagem que prevalece, a de um jogador-soldado que vai jazer morto e apodrecer ao ser atingido por balas imaginárias, Fonseca simboliza as duras condições de vida a que se submete um lateral-esquerdo. Fonseca, como se vê, foi presumivelmente mais uma vítima de um ataque de simulação súbita. A bola já lá ia a escapulir-se, não havia sequer bafo a adversário por perto e, por feliz coincidência, não havia nenhum tiroteio de rua na Amadora naquele momento. Fonseca, porém, tombou com o peso da tentação a vergar-lhe as pernas. E embora tenha caído de joelhos, fez os possíveis para cair digno e heróico como um verdadeiro lateral-esquerdo deve cair. Também para desenjoar depois de tantos lançamentos laterais seguidos e, quem sabe, ensaiar uma carreira como figurante em filmes de guerra.
Que mais podemos adiantar? Deixemos que as imagens ilustrem quão inspiradora foi a entrega de Fonseca para a sociedade em geral.



Cartaz original do filme “Platoon”, com Fonseca a morrer de forma imortal no lugar de Willem Defoe (raridade do arquivo de Oliver Stone)

Fonseca Faz Penalty Desnecessário, Treinador Dá Tau-Tau”, óleo sobre tela de Goya Jr., descendente de Goya (Museu da Prada, Cascaishopping)

Fonseca e a sua famosa interpelação na ONU, Nova Iorque (colecção pessoal de Kofi Annan)

The Fonseca Brothers, um grupo punk constituído por três indivíduos extremamente parecidos com Fonseca e conhecido pelo seu single O Melhor Lançamento Lateral da Minha Vida”, ao vivo na festa de despedida de Taoufik (cortesia da editora EMI - Valentim é o Carvalho!)

The Fonseca Brothers em êxtase num clube nocturno (direitos de reprodução detidos por Carolina Salgado)

sábado, agosto 30, 2008

Super Manu

























Super Mario e Luigi eram parceiros de sucesso na luta conta o mal. Sempre em sintonia, os bigodudos irmãos cobriam-se de glória em cada investida contra King Koopa e os seus sequazes.
Porém, quando Luigi recebeu uma irrecusável proposta do Desportivo das Aves para mudar a água ao tremoço no bar da colectividade, o seu Super irmão decidiu assumir uma carreira a solo, provavelmente apoiando-se no exemplo de Miguel Ângelo: "Se aquele gajo consegue ter (relativo) sucesso, então nem preciso de me preocupar muito."

Mas como nem tudo são rosas, Super Mario começou a aperceber-se que já não conseguia lidar com o malévolo King Koopa sozinho, até porque a gasolina está mais cara e andar aos super-saltinhos de um lado para o outro cansa bastante.

Vaí daí, decidiu abrir um casting para novo sidekick.
Após ter rejeitado Petrov (falta de higiene), George Jardel (gonorreia), Calçoa (não dançava a macarena), "Leandro" George Lima (problemas com a documentação) e Forbs (porque sim), Super Mario decidiu-se pela contratação de Manuel Correia, esteio desse grande viveiro cromático que é o Barça do Tâmega, e pediu a Príncipe Maestro para o ir buscar no seu jacto privado.

Uma vez chegado a Brooklyn, habitat natural dos super-canalizadores com bigode e nome italiano, Super Mario pôs um cachecol com os dizeres "O Maior Canalizador do Mundo" ao seu novel companheiro de caminhada na estrada da fraternidade.
Nascia assim uma união sem facto que libertava o rebaptizado Super Manu de uma parelha com o esfíngico Paulo Alexandre, para a vida de personagem alternativo de um segundo jogador de Nintendo.

Aos saltos, claro. Sempre aos saltos.

quarta-feira, agosto 27, 2008

A Sensação do Verão

Eis a grande sensação pop da época: um septeto de centrais lusos! Da esquerda para a direita: Chico Oliveira, ciente das suas qualidades físicas, todo lampeiro no seu traje para engate na esplanada; Sérgio Cruz, implacável como Clint Eastwood de cabelo comprido, exibindo um impecável verniz para as unhas; Vítor Duarte, frio e louro, olhando sobranceiramente para o mundo, sempre a postos para uma entrada de pé em riste; Dinis, o líder do grupo, a personificação da confiança, numa pose a que os costureiros franceses já denominaram de “Cristo blasé”; Matias, reguila e felpudo, plenamente confortável com a sua imensa virilidade; Jorge Soares, alguém com sérios problemas de rins mas sempre um eterno apaixonado, feliz como um petiz, agarrado precisamente a… Paixão, outrora reconhecido pela sua impetuosidade, agora terno e dócil nos braços do seu amigão Soares, relembrando as velhas tardes de fulgor farense.
Estes centrais andam por aí a debitar quantidades alarmantes de estilo neste Verão. Procure bem à sua volta. Não os perca.

domingo, agosto 24, 2008

CAI...TANO



(Caetano e a sua evolução calvina.. ou calviciesca.. ou carequista...no fundo um homem feito de testosterona)

Cáitano - era o nome mais ouvido na rádio dos anos 90, quando se relatava um jogo em que este lateral esquerdo participava. Uma bela maneira de pronunciar o nome do lateral esquerdo que pontificou no futebol português.
Caitano, Cãitano, Queitano... tanta maneira diferente de se dizer o nome.. por isso fomos à nossa investigação jornalística da semana.

Do que conseguimos apurar sobre a origem de nomes, aqui temos sobre "Caetano":

"Do latim “Caietanus”, define os habitantes ou naturais de Caieta, em Itália." Ora, nada mais falso, porque o puro Caetano nasceu em Vila da Feira, Portugal.
"O encanto, a delicadeza e o espírito poético definem este sonhador." Como se vê na imagem de Caetano no Boavista, é muita a delicadeza.. de facto os laterais esquerdos têm muito de delicados. Aquele pé, dominando a bola, não parece um pé de um jogador de futebol. Algo ali é diferente.. é um toque sublime, é como um Ouattara no meio dos leões da selva Costa Marfinense.
De facto o espírito poético fez Caetano andar por clubes românticos, suaves... já que andou nos 3 grandes ...abaixo dos 3 grandes! Belenenses, Guimarães e Boavista. Era a vertente sonhadora de Caietanus...

"É senhor de uma espontaneidade quase infantil e revela-se muitas vezes inconformista"
De facto uma figura juvenil, quase diria infantil... com o seu 1m40. Um lateral português, bem português, bem baixo, alguma técnica, umas bolas paradas bem marcadas (algo que não é estranho, porque os laterais esquerdos em Portugal costumam dar marcadores de bolas paradas. Senão vejamos: Fernando Mendes, Rui Jorge, Pedro Henriques, Rogério Matias, Antunes e .... CAIETANUS. Todos eles passaram por essa responsabilidade só ao alcance de Robertos Carlos desta vida.

"Apesar de intuitivo e impulsivo, tem tendência para alguma instabilidade emocional"
Jogador que passe no Boavista e que se preze, é impulsivo e tem tendência para alguma instabilidade emocional. Isso é claro como a água.
Também é claro como a água que jogador que passe num clube com Jesus na baliza, Pedro Barbosa e Paulo Bento no meio campo e N'Dinga a municiar o ataque fica claramente com instabilidade emocional. Quanto mais não seja porque Paulo Bento não devia ser de modas quando o Caetano lhe passava a bola: "Cae.. Cae..Caetano. Passa a bola .. a bola.. devagar e com jeito... e com jeito.. com tranquilidade Caetano"

Essa instabilidade emocional deu concerteza a Caetano esta calvície durante a sua carreira. Pode-se ver na evolução cronológica postada acima.
Caetano é agora treinador do Esmoriz após ter treinado o Feirense, o Académico de Viseu e os juniores do Boavistão. Espera-se que Caetano se junte rapidamente à galeria dos notáveis treinadores da I Liga, com passado futeboleiro ao nível do melhor que o nosso país fabrica.. ao nível de Jorges Jesuses, Josés Motas, Paulos Bentos e mesmo os recentes Paulos Sérgios e Jorges Costas.
Obrigado Caetano !!!

sábado, agosto 23, 2008

Zé Bala, o Incompreendido

A carreira de José começou precisamente da mesma forma que acabou: alguém achou que o Ginola de bolso não valia a pena.
Mas como? Afinal, estamos a falar de um dos mais emblemáticos jogadores lusos dos anos 90, e simultâneamente um pequeno Deus em Inglaterra, terra de big balls e small brains.
Vamos lá, então. Mantenham por favor o ênfase na palavra "pequeno", pois foi por causa da sua diminuta estatura que o José se viu dispensado do Benfica de William em 1993, após uma época emprestado ao bem-aventurado Sintrense. Porém, José caiu de pé.

A chuvosa e desinteressante Birmingham foi quentinha e acolhedora o quanto baste para este jovem lisboeta, ansioso por moldar a plasticidade do futebol a seu bel-prazer, manuseando a redondinha com a alegria de um Eduardo Mãos de Tesoura a cortar a mullet de Skuhravy.
Velocidade, destreza, facilidade em limpar o cotão por baixo da cama, criatividade e repentismo foram algumas das qualidades que tornaram o público inglês e dois coelhos em fãs acérrimos de José.
As críticas positivas sucediam-se e o modesto Birmingham já estava a um passo da Premier League inglesa, após a meteórica ascensão nas asas do pardalito luso, que voava graciosamente entre os desajeitados bisontes da Velha Albion.

Mas se pensavam que o Sporting de Queirós e Palmelão estava a dormir, enganam-se. No Sporting não se dorme, o que explica as olheiras de Afonso Martins e Nuno Assis.
Os responsáveis leoninos viram em José um extremo capaz de fazer miséria aos Sábados e não descansar aos Dominguez, e partiram também eles destemidos para a sua aquisição.
Dominguez era finalmente Leão - e Leão era do Salgueiros (na verdade, iria rumar a Alvalade em 1997, mas eu paro com os trocadilhos fáceis).

De volta à sua terra natal, o sol parecia brilhar para José. Infelizmente eram apenas as luzinhas das sapatilhas novas do Mauro Soares, que as comprara por 1.500$00 na Feira do Relógio, mas como o José é muito baixinho, nós compreendemos a confusão.

De qualquer forma, o Mundo parecia novamente um episódio da Rua Sésamo. Muitas cores, sorrisos, felicidade e pessoas com 1,20m. José vivia a melhor fase da sua carreira até ao momento. Assumindo o papel de suplente de luxo, o Zé Bala entrava para destruir o que restava do ego dos laterais adversários, fazendo gala da sua velocidade supersónica, drible apostólico e falta de objectividade divina.
Em Alvalade, era mais popular que o courato, principalmente quando formava a disfuncional ala esquerda com o imortal Vujacic.

Mas nem tudo eram rosas, tulipas e Chipendas para o nosso diminuto herói. A partilhar o balneário (entre outros sítios) com ele tinha a nemesis de Rei Artur - Ricardo Sá Pinto - e o enfant terrible da nossa bola, o new kid on the block Dani.
Juntos formaram uma clique que ficou conhecida como "Os Três Mosqueteiros":

-Athos/Sá Pinto é um nobre de alma pura (o menino da Foz) que carrega um terrível segredo, decorrente de um casamento mal fadado com Milady Arthur George.
-Porthos/Dominguez é a personagem alegre e vaidosa. A sua "catchphrase" é "O cabelo é a estrela. Eu só ando por baixo dele."
-Aramis/Dani é o playboy talentoso. Falso, mas extremamente amigável. Tenta esconder os seus inúmeros romances dizendo estudar ou jogar à bola com os compichas.

As suas incursões pela vida nocturna ficaram famosas. Os Três Mosqueteiros viviam intensamente as noites loucas de Lisboa, frequentando as discotecas mais "in" e alguns estábulos.
Eram tempos de folia desbravada. Tornaram-se companheiros de festa dos deuses do rock Delfins, cantando juntos melodias de amor com gelados Epá e copos de leite morno de permeio. São lendárias as cenas de pancadaria e violência com os rivais Pólo Norte na Big Cansil, todas as primeiras quintas-feiras do mês. As mulheres eram uma perdição e sentiam-se atraídas por este trio como uma deserta bancada por um cruzamento de Nenad ao terceiro poste.
Os três jovens estraram numa imparável espiral de decadência, chegando aos treinos de directa, vestidos com lingerie de mulher, ou não chegando mesmo. O bafo a limonada e marcas de batôn no cabelo indiciavam aquilo que toda a gente já sabia, mas não queria ver: as montagens de sequências desportivas com rock dos anos 80 em filmes tipo Rocky IV são foleiras os Três Mosqueteiros tinham de ser separados. Octávio Machado vestiu a pele de Cardeal Richelieu e destruiu o trio para sempre, na tentativa de salvar a carreira destes indomáveis jovens e o seu próprio emprego.
Ricardo foi socar treinadores para o País Basco, Daniel foi hipnotizar bifas para Amsterdão, enquanto foi passear o seu penteado pós-grunge para Inglaterra.

Sozinho em Londres, José Dominguez não demorou muito até se tornar numa estrela. Ainda mal tinha pisado o relvado de White Hart Lane (ou sido pisado por um colega 30cm mais alto), e já tinha batido um record: o jogador mais baixo da história da Premier League, do alto dos seus 1,60m. A sério, esta parte nem sequer é no gozo. Consultando a tabela que o site da Premier nos oferece, observo também que Clint Marcelle é o 5º classificado da mesma. Representin' Portugal, b-atches!Mad props!

















Claro que com este cartão de visita, o caminho já estava meio trilhado, e a locomotiva liliputiana tinha como destino a estação da imortalidade, com paragens nos apeadeiros da fama e da glória suprema. Tal como em Birmingham, o português arrebatou o coração dos adeptos ingleses, qual destemido cupido sem pejo de partir para o drible no 1 contra 4.
Mas essa mesma forma destemida e por vezes descabida de conduzir a bola acabou por conduzir os responsáveis do clube inglês contra si: o futebol inglês implora por objectividade como Mihaylov suplica por um capachinho, deixando José em maus (e pequenos) lençóis. Começava a esgotar-se o tempo do lusitano em Londres, como um relógio barato depois de ir à água. A pouco e pouco ia-se apagando. Começava a atrasar-se cada vez mais. Fraquejava. Até que foi relegado para a gaveta dos maus relógios (leia-se "reservas"), sendo utilizado apenas quando combinava com uma ou outra fatiota especial de Dominguez Domingo.

Chutado sem apelo nem agravo para a terra de Backhühnchen, Schweinebraten, Rinderbraten, Sauerkraut e Dampfnudeln, Zé Bala tentou reanimar a sua carreira pela terceira vez ao serviço do Kaiserslautern, mas os problemas de sempre persistiram. Foram quatro anos a driblar junto da linha de meio-campo, a tentar o 1 contra 6, e a mostrar qualidades artísticas sempre que sofria uma falta, rebolando 15 vezes sobre si mesmo como se tivesse sido atingido por uma caçadeira apontada pelo olho clínico do trinco/coveiro Amaral. O resultado foi o do costume: os adeptos adoravam-no, os responsáveis do clube nem por isso. Rua com ele.

Seguiram-se o Qatar e o Brasil, já numa tentativa desesperada de encontrar um futebol que se baseasse na anarquia e no desprezo profundo por todos aqueles que apregoam que a táctica e o senso comum têm lugar na bola moderna. Também não foi desta. Aos 31 anos, o último romântico pendurou as botas por não haver futebol que o compreendesse.
Posteriormente, tentou jogar à redondinha na praia, mas nem sequer os largos anos de experiência como brinca na areia certificado chegaram para encontrar o seu lugar como novo artista à beira-mar. Uma vez mais incompreendido.

Mas aqui estás entre amigos.
José, aqui és compreendido. E não é só aos Dominguez.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Batata Frita

O humilde Láy nasceu na Guiné-Bissau e gerou grande algazarra quando saiu do ventre de sua mãe para o mundo. Tanta que os ecos da boa nova eclodiram desde o capim cerrado e perpassaram o oceano. Do outro lado, à escuta, Bob Dylan compôs “Lay Lady Lay” em homenagem a si, à sua mãe e quiçá também à sua futura mulher. Genial, Dylan, genial. Três em um. Como um shampoo.
E Láy. Ou Lay? Plural: Lays. Nome de batata frita. Era um avançado que ondulava na área. Mostrava-se oleoso na fuga à marcação. Revelava-se estaladiço na hora de rematar à baliza. Besuntava o juízo dos guarda-redes com finalizações agridoces. Tem ou não tem acento? Tanto faz, tem assento na nossa caderneta.
Olhar no horizonte, nada a temer com as estrelas do equipamento All Sports do lado direito e o emblema do altivo Tirsense junto ao coração, o mundo era lindo e a miragem da UEFA estava ali ao virar da esquina, a um lustro de distância. Havia uma nova constelação chamada Tirsense. Esse Tirsense escuro como a tez de Láy, Lay ou homónimo de batata frita, como escuros são os insondáveis caminhos do destino para o clube de Santo Tirso. Que Deus nos livre. Da sorte do Tirsense, do cabelo do Láy e de um enfarte do miocárdio pelo consumo excessivo de batatas fritas.
Onde quer que estejas, Láy, sabes que podes contar com todo o nosso apoio. Sim. Vamos comendo-te em pacotes, acendendo a luz da tua memória nas nossas papilas gustativas por cada batatinha degustada. Lembramos-te como um veloz goleador e nas tuas variantes barbecue, cebola e presunto. Chlep.
És parte integrante dos nossos sonhos com a visão dos teus parcos, mas bonitos, golos de outrora. E és também parte indispensável do nosso cardápio. És dois em um, mas não és shampoo. És só tu. Viva tu. Viva Láy.

domingo, agosto 17, 2008

Então Traga-me Só O Pudim, Djoincevic

Sim senhor, foi um belo almoço. O bacalhau à Moreira de Sá estava divinal, acompanhado por umas deliciosas batatas a Sá Pinto-quando-encontra-Artur Jorge. Só faltava a sobremesa.
Chamei o empregado de mesa. Ele era nada mais que o bonacheirão Djoincevic, agora retirado dos relvados e com madeixas brancas no couro cabeludo, embora ainda preservando a inconfundível barba. Trazia estampada na farda a óbvia saudade dos gloriosos tempos do velho Salgueiral.
- Então, meu bom homem – dirigi-me afável – diga lá o que tem de sobremesa.
- Ter pudim…
- Eh pá, porreiro – sempre gostei de pudins. Dos caseiros, claro. Aquilo dos pacotes do Mandarim era uma sabujice. Todavia, uma refeição daquelas merecia algo em grande. Indaguei-lhe por mais.
- Então e não há para aí nada com Rui França ou com Nikolic, o Maradona de Paranhos? Isso seria absolutamente fantástico!
- Não… não… já não haver nada… nada restar, sinhor… - percebi que tinha cravado uma seta lá no fundo do seu coração. Djoincevic perdeu o sorriso, as sobrancelhas murcharam e o pobre empregado, escondendo a cara enquanto fungava, a custo evitou que uma teimosa lágrima escorresse pela sua face cabeluda – Mas ainda haver pólo aquático na Salgueiros… - apontou Djoincevic, tentando reter alguma da sua doce ilusão.
- Deixe lá isso, homem – tentei chamá-lo de volta à realidade – Tem mais alguma coisa?
- Ter Varzim
Olá! Varzim rima com pudim. E um Varzim vintage promete, com o travo exótico de Lufemba ou o sabor fidelíssimo de Alexandre, o guedelhudo. Bem bom.
- E de que colheita é esse Varzim?
- Ser do ano passado, sinhor. Muita bom. Querer ver carta?
Ora bolas. Não era bem aquilo que estava à espera. Mas pronto; podia ser que houvesse qualquer coisa que me aguçasse o apetite…
- Venha de lá essa carta, meu grandessíssimo central de marcação.

Hmm. Um Malafaia carregado de gel. Soa-me a indigestão. Tem um nome jeitoso, sem dúvida, é um belo cruzamento entre Malaquias e Alfaia, mas todo aquele creme no cabelo não me deve cair bem. Parece-me um tipo claramente saudosista da moda “Vedeta 1996”. E aspirantes a Sérgio Conceição potenciam-me gastroenterites.




Hã? Ukra? Será o diminutivo radical de “ucraniano”? Eh pá, mas isto é coisa que se apresente a um cliente habitual? Um tipo de Famalicão com uma alcunha que nem um jogador brasileiro ousaria envergar? Sinceramente, Ukra soa-me a sobremesa confeccionada à pressa há 15 dias atrás e conservada fora do frigorífico. Não vou pegar nisso.




Olha, olha, o Postigol por aqui!... Isso confere um cariz internacional à ementa. Ah, mas não é o Hélder, é o Marco. Que azar. É como se a primeira fatia de um melão aparentemente suculento se desfizesse em água desenxabida – assim foi o efeito deste Marco em mim. Fazer-se valer do nome do Hélder… o que não significa necessariamente nada de bom… mas enfim, alguém ainda te irá comer pensando seres o Hélder.




Eh lá!, eis um verdadeiro acepipe! Cresceu-me água na boca: ele era Yazalde, o mítico matador leonino. Iria cair que nem ginjas no bucho. Mas… mas… é outra fraude! Este Yazalde não é o Yazalde que eu conheci! Isto é contrafacção! Não há pachorra para estas imitações. Faz-me lembrar o Messi do Olhanense. E o Zamorano ex-Estrela da Amadora. E as calças Lewi’s e Sóveste que se encontravam nas feiras. Chamei o empregado.


- Ó Djoincevic, este Yazalde esteve muito tempo ao sol, não? Está muito queimado para ser o verdadeiro Yazalde!...
- Não ser essa Yazalde, sinhor. Ser Yazalde, homenagem a argentino. Ser nova especialidade do casa. E ser muita bom.
- E o que é que leva?
- Er… ovos, achar eu… lête… hãããã… e o açúcar de um golo ou outro… achar ser… eu só servir mesas… ser muita bom, eu já provar.
- Ah, se o diz, está bem – quem sou eu para duvidar da palavra deste sábio central que partilhou tardes e tardes de alegria trauliteira com Milovac? – Então pode ser um Yazalde fresquinho, mas traga-me um com cabelo à anos 70, por favor.
Porém, os meus intentos não seriam concretizados. Djoincevic voltou da copa com más notícias.
- Sinhor, já não haver Yazalde. Vender último há meio-hora. Mas amanhã já ter nova Eusébio.
Pois, pois, de novos Eusébios e de novos Maldinis está o inferno da Luz cheio… ou estava, até Mawete Júnior e Sepsi receberem a guia de marcha. Era vê-los chegar às paletes com grandes parangonas e depois ninguém tocava neles, ficavam todos a apodrecer e a cheirar mal a céu aberto, como toda a gente sabe. Era o festim das salmonelas. Não, a mim não me apanham nessa. E, para mais, quero uma sobremesa agora. Por isso decidi-me pelo seguro:
- Então traga-me só o pudim, Djoincevic. Pode ser do Mandarim, já estou por tudo.
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